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Cidades Geminadas na Aventura da Paz
A Viagem
República Democrática do Congo
Capital: Kinshasa Moeda: Franco Congolês Língua Oficial: Francês
Quinta-feira, 11 de Setembro.
Prosseguimos até à fronteira de Angola com a Republica Democrática do Congo, e aí entrámos noutra aventura.
Uma pequena tabuleta dizia: Congo Belga. Cabe aqui referir que o Tito é nascido na República Democrática do Congo, em Kalima Pangi, na zona de Kivu no Norte Nordeste, junto ao Ruanda Burundi, região infelizmente conhecida pelas chacinas e genocídio que aí têm sido praticados por ambos os adversários, tanto Tutsis como Hutus.
Segundo informações prestadas por Abdellahi da ONU, nem valia a pena tentar ir a Kalima. É uma vila completamente destruída que o Tito não iria reconhecer. Ali, na fronteira, como na embaixada da R.D. Congo em Portugal, disseram-lhe que nem de avião se garantiam condições de segurança para visitar essa zona.
Fomos interpelados pela polícia da fronteira que nos chamou à atenção, com um ar altivo, de que o passaporte do Tito dizia que ele tinha nascido no Zaire quando o país se chama agora de R.D.Congo. A discussão foi endurecendo, em torno de aspectos burocráticos, desnecessários e injustificados, e só terminou passada uma hora, sem subornos. Despedimo-nos dos jovens que nos acompanharam desde Maquela do Zombo no camião da missão e que eram originários de uma tribo que se estabelece de ambos os lados da fronteira bem como de dois motociclistas, entretanto chegados que faziam o caminho inverso ao nosso e com quem trocámos informações úteis.
Após as formalidades, dirigimo-nos à missão protestante tendo em vista arranjar gasolina. Dois jovens motociclistas que ali se encontravam, combalidos física e psicologicamente, pelas dificuldades do terreno que tinham atravessado, cederam-nos alguma, da pouca que tinham e passaram-nos o contacto de um português simpático, o Zé Mendes, que haviam encontrado em Kinshasa.
Chegados à capital fizemos uma paragem para almoço e procura de postais para manter viva a tradição de enviar aos patrocinadores um de cada um dos países atravessados. Tudo fechado, era Domingo. Nova tentativa: encontrar um local de onde se pudesse enviar um e-mail com fotos. Finalmente, quando estávamos em diálogo com o dono do cyber café, fomos abordados por um belga e um congolês que perguntam de onde é que vínhamos! Fomos, então, apresentados a jornalistas de um diário de grande tiragem de Kinshasa que solicitaram uma reportagem.
O português, o Zé Mendes, revelou-se um homem excepcional. Falava fluentemente o Kiswahili, ou Swahili, a grande língua de África, e disponibilizou-se para ser nosso cicerone, nos arranjar dormida e nos acompanhar ao jornal. Entretanto o jornal contactou um canal de televisão que também veio fazer a reportagem, juntamente com um outro canal que o Zé Mendes conhecia, o que resultou em duas horas e meia de entrevistas e reportagens!
Afastámo-nos do caótico centro de Kinshasa, seguindo o carro do Zé Mendes, que pegava por ligação directa e dispensava chaves, chocalhava e roncava por todos os lados! Naquele carro incrível, ele dizia que ia até ao fim do mundo.
Depois de percorridos 25 quilómetros, o trânsito era ainda fervilhante, as ruas cheias de vendedores, o caos, a turbulência, a poluição, o barulho estavam completamente instalados. Zé Mendes apresentou-nos Papillon, antigo membro da secreta do presidente Mobutu, dono de uma quintinha nas margens do rio Congo, de onde se podia ver a capital do país vizinho, Brazzaville. Era uma casa agradável, com piscina, onde vivia com a mulher e as três filhas do último casamento. Papillon, com cerca de 50 anos, era assim chamado por ter orelhas muito grandes, parecendo uma borboleta. Pôs a sua casa à disposição e lá estivemos em amena cavaqueira, tirando fotografias ao rio Congo com uma magnífica luz de fim de tarde.
Papillon, que tinha excelentes relações com alguns elementos da cultura e das artes da capital, promovia nesse dia, na sua quinta, uma exposição de escultura, gravura e pintura de alguns jovens artistas.
No dia seguinte, tomámos o pequeno-almoço com o nosso anfitrião, a mulher e as filhas. As crianças tinham um ar saudável e contente, brincavam descalças no jardim, nas pedras, na areia; eram obviamente privilegiadas naquela cidade, distinguiam-se pois das muitas crianças com ar pobre que vimos.
Chegou então a altura de irmos confirmar o veredicto sobre a fractura das costelas do Tito e assim dirigimo-nos ao Hospital Central. Aí chegados, o Zé Mendes mandou-nos esperar, disse que não valia a pena entrar pela porta oficial, porque iríamos pagar um valor muito elevado. Decidiu ir ao Raio-X falar com o enfermeiro e o médico e pedir-lhes para ver o Tito de uma forma clandestina. Pagar-se-ia muito menos, a eles, directamente, não haveria facturas, tudo se passaria da melhor maneira. Ao fim de meia hora, regressou e disse:
«Está tudo arranjado».
Lá avançámos pelos corredores imensos do hospital que se encontrava praticamente deserto, ouvindo-se em alguns pontos o relato de um jogo de futebol. Uma máquina antiquada ditou a sentença não havia nada partido, mas sim uma forte distensão muscular que provocava aquelas dores. A receita foi umas pastilhas para acalmar as dores e uma pomada para massajar. Mas a notícia de que não havia nada partido foi o mais importante.
Era tempo de preparar nova partida para estar na fronteira no dia seguinte, cedo.
Apanhámos as nossas coisas em casa de Papillon, deixámos algum dinheiro para as crianças, (aconselhados pelo Zé Mendes), e fomos dormir a casa de outro amigo, num condomínio fechado, guardado com segurança, onde as condições também eram óptimas.
Era uma pequena vivenda muito agradável, de um português, que estava ainda a trabalhar no Congo, mas que já preparava a ida para o Uíge, em Angola. Durante a tarde, ainda conhecemos no restaurante alguns portugueses da comunidade local. Um deles, refugiado da ONU, aguardava luz verde para regressar a Angola e recuperar as propriedades que estavam a ser devolvidas pelo governo angolano aos antigos proprietários.
Conhecemos, também, o comandante da força de segurança pessoal do presidente Kabila, o militar que conduzia uma das motos da guarda de honra do presidente nas suas escoltas. Era volumoso, de uma simpatia enorme e sempre de óculos escuros. O João Pedro prometeu enviar-lhe um dos seus fatos de motard
Fizemos compras para o jantar na mercearia do libanês. Trocámos também algum dinheiro. O serão foi passado em frente à RTP África, que se captava naquela zona.
No dia seguinte seguimos para o local combinado. O Zé Mendes apareceu com meia hora de atraso no seu carro barulhento... Com um carro daqueles, pontualidade era difícil... As pessoas juntavam-se à nossa volta aos magotes, fascinadas com as motas, como que querendo tocar-lhes.
Após as formalidades alfandegárias, pedimos ao Zé Mendes um último grande favor: que arranjasse postais do Congo-Kinshasa para enviar para Portugal. Para tal deixámos-lhe 100 dólares e demos-lhe a lista das pessoas a quem os enviar. Ainda comentámos entre nós que ninguém iria receber os postais... Mas o que é certo é que receberam, ele cumpriu o prometido.
Apanhámos então o ferry-boat para chegarmos ao Congo Brazzaville. Este barco destinado apenas ao transporte de pessoas e que excepcionalmente transportou as nossas motas, encheu até parecer transbordar. Vimo-nos então rodeados de carros de inválidos e deficientes, puxados manualmente ou com pedaleiras de bicicleta, que rodam pela força de braços. Um caos! Um barulho infernal, uns polícias a fazerem sinais que não podíamos tirar fotografias e as pessoas a dizerem para não ligarmos, que os polícias eram parvos!
Quando finalmente julgámos que íamos fazer a travessia, chegou a informação de que tínhamos que esperar! O presidente do Congo-Brazzaville, tendo tido no dia anterior a informação de que a oposição tinha declarado, em França, que ia regressar ao país, mandou fechar a fronteira. Ficámos para lá do gradeamento, numa zona de ninguém, à espera.
Três a quatro horas depois, após termos tirado muitas fotografias e termos conversado com muita gente, sobre vários assuntos, nomeadamente o preço de um motor para aplicar em cadeiras de rodas, o presidente lá resolveu abrir as fronteiras. Começámos, então a navegar em direcção a Brazzaville, nas águas agitadas do poderoso rio Congo, o 2º maior rio de África, onde em certas zonas chega a ter 16 km de largura.
----- República Democrática do Congo, ex-Zaire com Mobutu o ditador e ex-Congo Belga, foi durante muitos anos propriedade privada do rei Leopoldo, tendo mais tarde, após a 2ª Guerra, passados à tutela da Bélgica, sendo actualmente dominado por Joseph Kabila, o qual sucedeu ao pai, assassinado numa tentativa de golpe de estado.
É uma das zonas mais ricas do globo, em petróleo, em diamantes, em ouro, em urânio, em metais raros, com florestas imensas,
Este país, um dos maiores de África muito cobiçado interna e externamente, com conflitos particularmente sangrentos, corre o risco de se desmembrar destruindo o sonho, do fundador da independência Patrice Lumumba, de preservar a unidade nacional
República do Congo
Capital: Brazzaville
MoedA: Franco CFA Língua Oficial: Francês
Sábado, 15 de Setembro.
A viagem de meia hora terminou de um modo impensável! Quando foi encostado ao cais, o barco, que por ser só de transporte de passageiros, parou junto a uma escadaria de uns 50 degraus! Ficámos estarrecidos a pensar como é que iríamos sair dali! Nós e toda aquela gente, os carrinhos de inválidos e os paralíticos!
A resposta veio de uma forma surpreendente, agitada pela azáfama, perigosa, até! De repente, estávamos rodeados por muitos jovens que agarraram as motas por todos os sítios, alguns não muito fortes, como por exemplo nos piscas, na iminência de estragar tudo. Levantaram as motas em peso, connosco ainda em cima delas. Berrando, pedíamos para sair, o que efectivamente aconteceu. Depois ergueram-nas de novo, arrastando-as pelos degraus acima, empurrando quem estivesse à volta! Claro que não havia alternativa.
Quando chegou a altura de pagar é que foram elas. A exigência de pagamento era muito elevada, dirigimo-nos a um polícia que estava na fronteira e perguntámos qual seria o preço justo por aquele serviço. Perante a resposta do polícia, pagámos. No entanto, os jovens não ficaram satisfeitos e perseguiram-nos até ao edifício da fronteira., exigindo mais dinheiro, dizendo que foram necessárias cerca de 20 pessoas a pegar nas motas, o que era de todo impossível.
A nossa intenção era ir até Ponta Negra, junto ao mar. A polícia, disse-nos taxativamente: “Meus amigos, se vocês vão para Ponta Negra, encontram uma zona que é dominada pelos rebeldes. Como tal, atravessar a floresta não oferece o mínimo de segurança. Uma a duas vezes por semana são feitos comboios militares, mas asseguro-vos que nem hoje nem amanhã vai haver”.
Resignados, aventurámo-nos a sair de Brazaville, esperámos mais de duas horas para trocar dinheiro, fomos autenticamente roubados, pagando juros e comissões exageradas. Arrancámos para norte a caminho da fronteira com o Gabão. Entrámos pela floresta, esganados de fome. A escassez de alimentos era grande e surpreendentemente, nem nesta zona, nem nas anteriores, encontrámos aquilo que achávamos ir encontrar: bancas com frutas variadas.
Só bastante mais tarde, já ao anoitecer vislumbrámos uma grande recta, que mais parecia uma pista de aterragem. Ao longo da estrada, dezenas de velas acesas davam um aspecto de pista iluminada. Eram somente bancas de venda, dezenas de pequenas mesas numa extensão enorme, onde se compravam comida e todo o tipo de apetrechos.
Parámos e automaticamente fomos engolidos pela multidão, que se aproximou curiosa. Um jovem disse: “Eu sou filho do chefe da polícia, venham atrás de mim que há ali um pequeno hotel onde podem dormir”. Desconfiados, embrenhámo-nos pela floresta dentro, só com a luz do candeeiro a petróleo que ele levava nas mãos e a luz das motas. Acabámos por chegar a um local com muitas palhotas, onde um senhor de idade apareceu. «Eu vi-vos ontem na televisão». Era o chefe da Polícia, desta pequena vila chamada N’go, que tinha electricidade em casa e televisão, e tinha visto a reportagem que nos tinham feito em Kinshasa uns dias antes. “Vocês dormem ali, num hotelzinho”.
Chamar àquilo hotel, não é insulto, é uma provocação! Aquilo eram quartos em que as portas tinham uma ventilação muito especial: na parte de baixo, a altura dava para meter quase um pé, a iluminação era a petróleo, tinha uma cama, não havia lençóis nem cobertores. Instalámo-nos com os nossos sacos cama!
Comprámos numa braiserie carne grelhada, um bom pão de lenha, cola e laranjada, em quantidade suficiente para que o filho do chefe da polícia e os amigos que entretanto apareceram nos pudessem acompanhar e por fim dormimos, cansados.
Na manhã seguinte, montámos nas motas a caminho da fronteira com o Gabão. Pela distância que tínhamos no mapa, pensámos chegar nesse mesmo dia a Leconi, já no Gabão. Mas não, tal não aconteceu, nem nesse dia nem nos três dias seguintes.
Os agentes da fronteira, no Congo-Brazzaville, tentam sacar-nos dinheiro. Primeiro, disseram que tínhamos de tirar um visto de saída; e o Tito, certo de que isso não existia, fingindo telefonar para o embaixador com o telemóvel satélite da TMN, recusou-se a pagar fosse o que fosse. Perante esta atitude, o Serviço de Fronteiras carimbou os passaportes e mandou-nos embora.
Mais à frente chegou a vez da Polícia. Essa, mais directa, disse logo que queria dinheiro para nos deixar sair. Mais uma vez, fizemos a cena da recusa, a cena do embaixador ao telefone, e ainda fomos à mota buscar documentos obtidos na embaixada em Portugal com um carimbo verde, que era uma autorização especial de passagem. Perante isto, eles retorquiram que tínhamos percebido mal: o que eles perguntavam, era se nós os queríamos ajudar, mas não exigiam qualquer quantia...
Temos consciência de que os salários são miseráveis, de que as nossas motas são uma espécie de ostentação provocatória... Mas se vamos aceitar de uma forma pacífica as exigências que nos fazem, algumas veladas, outras explícitas, não há dinheiro nem capacidade para aguentar uma viagem destas.
Arrancámos para a selva aproximando-nos do Gabão.
Faltavam 25 quilómetros até uma pequena aldeia chamada N’Gambié, que custaram cerca de 4 horas a completar. A progressão era de uma dificuldade incrível, feita sobre capim raso queimado e areia mole.Com tracção nas quatro rodas até os jipes tinham dificuldade em progredir e ficavam enterrados. Verdadeiramente arrasador. Ao descer a montanha reparando numa pequena aldeia junto ao rio o Tito disse, grave, para o João Pedro:
«Eu paro por aqui. Deixa tudo comigo e arranca até à aldeia para nos virem ajudar. Estou arrasado».
O que faz um homem, sozinho, exausto, no meio da selva? O Tito fez fotografias, entreteve-se com os ruídos da natureza, olhou para as árvores, sentiu-se invadido por uma sensação de solidão. «E se aparece aqui um animal selvagem?» Pega na sua faca, procura as árvores mais altas mas eram quase todas raquíticas, sem grandes condições para poder fugir. Nem para dar sombra estas árvores serviam...
Cerca de uma hora depois, começou a ouvir vozes. Dá uns gritos, chama, até que aparece o João Pedro com mais 10 ou 15 jovens que vêm da aldeia, cantando, bem dispostos, prontos para ajudar. Uns pegam nas rodas, outros pegam nas malas, todos com as coisas à cabeça, e por um novo caminho, atravessámos os campos até chegar à aldeia de N’Gambié.
Aí estava um rebuliço à volta da mota do João Pedro. Todos a perguntarem se o Tito estava bem, a oferecerem água, já que de comer só havia mandioca.
Na aldeia, ao entardecer, fizeram esforços para encontrarem qualquer coisa para comermos, sabendo que não gostamos lá muito de mandioca... Fizeram uma cama agradável na cabana do chefe, “Le Vieux”, 60 anos, casado com 4 mulheres e pai de 25 filhos. A aldeia girava quase toda à volta dele. Como o Tito tem 52 anos, tornou-se rapidamente no “Deuxième Chef”. Explicaram que, embora houvesse uma mulher mais velha, as mulheres não podiam ser chefes da aldeia. O João Pedro era o “Le Jeune”.
Lá conseguiram improvisar uma omeleta de dois ovos, que uma das filhas, que se dizia educadora de infância em Brazzaville, tinha trazido. Fotografámos a nossa primeira refeição em N’Gambié: o pão que nos sobrava da anterior aldeia, mais um prato de estanho (ou de lata) com a omeleta.
O chefe quis honrar os visitantes com uma festa e à noite mandou acender grandes fogueiras. À luz das chamas e dos faróis das motas, dançou-se de uma forma cada vez mais frenética ao som dos batuques. Até que duas jovens mais atrevidas saíram da roda e foram insinuantemente desafiar o João Pedro a dançar..., o que o envergonhou um pouco.
Nessa noite, após a festa, apagaram-se as fogueiras e fomos para as cabanas dormir.
Tendo ficado a dormir na cabana do Velho Chefe, deram-nos um espaço com uma certa privacidade, com uma cama e colchão, fizeram-nos mosquiteiros, trataram-nos como irmãos. Era uma cabana feita de colmo, praticamente sem divisórias, pais e filhos viviam todos mais ou menos juntos, e aos olhos ocidentais parecia haver ali uma certa promiscuidade. Embora fosse chamada a cabana do Velho Chefe, na realidade ele vivia numa outra cabana mais afastada; nesta vivia o filho mais velho com a mulher e três filhos.
No dia seguinte, ao alvorecer, como num ritual, as pessoas dirigiam-se ao rio Lekéti, um rio de águas cristalinas, e tomavam o seu banho. Os homens numa zona e as mulheres a cerca de 50 metros, banhando-se seminuas com grande à vontade.
Logo de manhã apareceu um homem do Togo com um camião. Após uma longa discussão, acertámos o preço que nos cobraria por levar a mota do Tito, (até ao Gabão eram mais 120 a 130 quilómetros, no mesmo tipo de terreno que tínhamos enfrentado à chegada à aldeia de N’Gambié, e o Tito não estava em condições físicas de o fazer). O homem do Togo combinou aparecer ao fim do dia para fazer a travessia. O João Pedro resolveu partir até Leconi, no Gabão, tendo combinado encontrar-se mais tarde, quando o Tito chegasse na boleia do togonês. Não tivemos em conta que estávamos em África... O homem só apareceu passados dois dias... O Tito, preocupado, esperou na aldeia que aparecesse esse ou outro camião para poder ser transportado para o Gabão, perguntando a todos quantos de lá chegavam se tinham visto ou se tinham notícias do seu companheiro de viagem. È que o João Pedro levara o telemóvel satélite e por isso, ali isolado, não tinha forma de tentar obter quaisquer notícias. Investido da sua qualidade de “Deuxième Chef”, arrancava para as tarefas diárias, quase médicas, aproveitando aqueles dias para tirar muitas fotografias e visitar mais profundamente a aldeia, ir mais longe junto ao mato, sempre na ânsia que o homem do Togo aparecesse...
Já no primeiro dia, aproximou-se um pai, que pediu remédios para o seu filho bebé. Tirámos a febre à criança e face aos sintomas constatámos que devia ser uma gripe. Pegámos nos medicamentos que levávamos, vimos a posologia, e explicámos-lhe que de oito em oito horas era necessário tomar a medicação: meio comprimido. É claro que no dia seguinte apercebemo-nos que, sem relógio, sem uma noção exacta do tempo, orientando-se pela altura do sol no horizonte, com o calor que se fazia sentir e que obrigava àquela lassitude da África Equatorial, era difícil calcular o tempo. Na sequência da divulgação que esse pai fez, apareceram mais quatro pais, (dois pais e duas mães), o Velho Chefe e um dos seus filhos, com diarreia, a pedirem remédios.
Então, a tarefa do Tito após a partida do João Pedro foi apontar uma agenda de consultas e tomas de medicamentos, avisando todos, um a um, dia e noite, a hora da toma.
Um dia, o Tito conseguiu arranjar uma espécie de limas ou laranjas, verdes por fora mas maduras por dentro, e grandes, com que se deliciou e acalmou a fome que já vinha sentindo há dias. Noutro dia deram-lhe carne, mataram uma galinha-do-mato. Noutro dia ainda, cobra de mato. E lá foi também comendo mandioca... Comia bastante cana-de-açúcar. Estava a conseguir ficar elegante!
Na cabana do Velho Chefe havia a tal criança que tossia muito. O Tito lembrou-se de pedir que lhe arranjassem uma grande quantidade de cana-de-açúcar. Mandou descascar e ferver num pote enorme. Durante cerca de duas horas ferveu num lume de muita lenha, até ficar bem cozida. De vez em quando mandava tirar uns bocados de cana, e esmagar no pilão, e tornar a pôr lá dentro. Com um lenço com características de gaze pedia para tirarem a parte sólida. Por fim, ao líquido açucarado que começou a ficar bastante espesso juntou se uma grande quantidade de sumo, das laranjas-limas que lá existiam, fazendo uma espécie de xarope para dar às crianças que tinham tosse. O facto é que resultou, amaciou. Era muito doce, bastante doce mesmo, porque, claro, o Tito também provou! Sabia àqueles rebuçados caseiros de mel e limão. Muitas crianças iam aparecendo e também queriam aquele xarope, porque sabiam que era doce, e fez-se logo uma boa quantidade. No dia seguinte, tornou-se a repetir a dose.
Naquela aldeia, os miúdos brincavam com os seus carros, fabulosos. Sendo integralmente feitos em madeira e bocados de borracha, até molas tinham! Pneus e casca seca da cana faziam de mola em tensão e os carros, alguns a imitar jipes, viravam à esquerda e à direita. Eram de uma imaginação e criatividade incríveis! Aqui ainda é possível constatar que o brinquedo é uma invenção da criança e não como na nossa sociedade uma oferta de um adulto.
Enquanto descobria as redondezas, Tito constatou que por ali, as campas dos mortos adquirem uma grande altura de terra por fora pois, não existem utensílios para escavar fundo. Dizem os locais que é para impedir que os animais selvagens venham retirar os corpos. Nessas campas, estão todos os bens que o morto possuía em vida. Os exemplos são bizarros: uma senhora de idade tinha a sua velha cadeira de verga, dois ou três panos, tipo lençol, que cobriam a campa, três ou quatro pratos, as suas sandálias de plástico; mais à frente, uma campa pequena, certamente de um bebé, tinha roupas estragadas e um biberão; noutra havia garrafas, uma faca, um prato, roupa de homem. É impressionante constatar, a partir destes despojos, quão pobres são estas gentes. Apesar disso, estes haveres não são tocados por ninguém, mesmo os objectos que poderiam ser reutilizados como os sapatos ou as sandálias.
Pedindo licença aos Deuses que regem o Universo, o Tito foi tirando algumas fotografias!
O homem do Togo apareceu, como já sabemos, dois dias depois querendo renegociar o preço. Exigiu dez vezes mais do que o inicialmente acordado! Em desespero, o Tito ainda pensou aceitar, apesar de ser um preço exorbitante, até na Europa. Foi surpreendido pela posição do chefe da aldeia e dos seus habitantes que, tendo testemunhado a negociação dias antes, enfrentaram o homem do Togo:
“Ou o senhor mantém o preço e leva o homem branco e a moto, conforme a sua palavra de há dois dias, ou então não atravessa mais o rio na nossa barcaça e vai fazer mais 200 quilómetros até encontrar outro local para fazer a travessia!”
O outro ficou furioso, começou a gritar e a gesticular, mas o chefe manteve-se inflexível. O homem do Togo não tinha alternativas. Entretanto, aparece um miúdo, a correr, esbaforido, e a gritar: “Pedro, Pedro, Pedro”. Era o João Pedro, que estava de regresso com um jipe arranjado em Leconi. Contou das imensas dificuldades que tinha tido para chegar ao Gabão.
Com efeito, após as despedidas, o João Pedro partira para fazer os 120 quilómetros que separam N’Gambié e Leconi, tendo traçado uma estratégia para atravessar os planaltos do Congo em direcção ao Gabão.
Esta estratégia consistia em parar 5 minutos em cada 15 de condução, pois era a única forma de fazer este trajecto correndo os riscos calculados, pois estava sozinho o que o deixava apreensivo.
Logo após ter atravessado o rio constatou que os primeiros 200 metros eram apenas areia mole o que tornou a partida emocionante. A primeira montanha tinha cerca de 2 quilómetros de subida. Seguiu pelo meio da vegetação, em progressão lenta sem conseguir ver mais do que 100 a 150 metros. De repente deixou de ver o rio, avançou seguindo ao longo na pista. Na primeira hora conseguiu fazer apenas cerca de 20 quilómetros, mas achou que tinha conseguido um bom resultado. A este ritmo conseguiria chegar a Leconi no mesmo dia. A progressão continuou lenta. A determinada altura a pista dividiu-se em duas, o que lhe deixou algumas dúvidas. O João Pedro relembrou então as palavras do filho do chefe da aldeia que lhe recomendou que seguisse sempre pela direita. A cerca de 500 metros viu um animal que não pôde perceber o que era, tinha uma silhueta parecida com uma gazela e da mesma forma que apareceu, desapareceu rapidamente. A mota saltava a um ritmo avassalador, o que levou o João a pensar que ela não aguentaria esta ligação e se ia desfazer.
A meio da tarde viu a primeira cabana. Apercebeu-se então que estava próximo de Leconi. Cerca de meia hora depois apareceu alcatrão, o que o deixou muito contente, pois tinha conseguido chegar sem haver problemas de maior. Dirigiu-se à polícia para fazer o registo e carimbar o passaporte e informou que ficaria no único hotel da pequena cidade e que brevemente chegaria outro português. Seguiu para o hotel e aproveitou este tempo para verificar a sua BMW, pois esta ligação tinha sido demolidora. A mesma estava sem problemas. Tomou um banho e esperou que o Tito chegasse, o que não aconteceu. Já depois de escurecer, dirigiu-se à polícia dando conta da sua preocupação, tendo-lhe sido dito que era normal os viajantes ficarem a dormir nos planaltos quando a noite chega.
Nessa noite, embora apreensivo, o cansaço venceu-o e adormeceu.
Na manhã seguinte o João Pedro acordou e percorreu a cidade a tentar descobrir se tinha chegado alguém do Congo – Brazzaville. Mas ninguém tinha chegado! A manhã passou e como a meio da tarde o Tito ainda não tinha aparecido, o João Pedro, deveras preocupado, dirigiu-se de novo à polícia e perguntou se o podiam acompanhar pela pista, pois talvez tivesse havido um acidente ou coisa parecida. A polícia informou que não era possível, pois não tinham combustível para o jipe. Incrédulo o João Pedro perguntou se havia outro jipe na cidade que o pudesse acompanhar ao Congo. Informaram-no então que o padeiro tinha uma carrinha de caixa aberta pelo que correu à padaria a contar o sucedido. O padeiro disponibilizou-se para ajudar, tendo combinado que partiriam de manhã cedo. Antes de se ir deitar ainda telefonou à filha Barbara a dar os parabéns pelo seu aniversário. Conforme combinado, na manhã seguinte partiram. A progressão era mais difícil de carrinha do que de moto. Dentro da cabine o João Pedro e o condutor eram atirados constantemente contra o tecto e contra a porta.
Percorreram toda a pista e não viram ninguém. Ao fim de 7 horas avistaram o rio Lekéti e chegados a N’Gambié encontraram finalmente o Tito que se preparava para avançar para o Gabão com o homem do Togo. Ficaram contentes pois constataram que ambos estavam bem e que nada de mal havia acontecido.
Ultrapassado este momento difícil, ficámos muito sensibilizados com a atitude daqueles homens: numa aldeia recôndita de África, sem quaisquer laços particulares connosco, homens brancos, deram-nos apoio, alimentação, estadia, e tomaram esta posição de força face ao homem do Togo. A despedida foi, por tudo isto, especialmente emotiva.
Passamos para o outro lado do rio sobre uma barcaça, que se movia a partir da tensão de cabos esticados de ambas as margens aproveitando a força do caudal do rio, por isso não necessitando de motor.
Percorremos no jipe os 120 quilómetros deste percurso bastante atribulado. A dificuldade do terreno era imensa, e o jipe nem sempre tinha capacidade para transpor a lama que se amontoava nestes terrenos e muitas vezes tivemos de o empurrar. Evidentemente não havia estrada por isso procurámos trilhos novos para avançar O aquecimento do motor obrigava a parar de vez em quando; era preciso deixa-lo arrefecer, pôr água no radiador e depois tornar a arrancar. Após quase 9 horas de viagem atingimos o nosso objectivo.
-----República do Congo, mais conhecida por Congo-Brazzaville, rico em reservas de petróleo e florestas, usado como depósito de lixo tóxico pelo Ocidente, sofreu uma forte exploração pelas companhias privadas. Quando se construiu a via-férrea de Brazzaville a Ponta Negra, as condições de trabalho foram de tal maneira inumanas que se diz: um morto por cada travessa.
Este país que pensava caminhar para a democracia pacificamente, devido ás lutas pelo poder fomentadas por interesses económicos, está mergulhado num longo e sangrento conflito.
República do Gabão
Sexta-feira, 19 de Setembro.
Capital: Libreville Moeda: Franco CFA Língua Oficial: Francês
Sexta-feira, 19 de Setembro
Chegámos finalmente a Leconi, já no Gabão, bastante tarde. O Tito tinha uma grande preocupação: telefonar à filha Mariana que completava 3 anos naquele dia. Certamente envolvida pela festinha de aniversário em Portugal, poderia ouvir as palavras do Pai a mandar beijinhos... Conseguiu, para grande contentamento de ambos.
Após uma noite de sono reparadora e de pagarmos as despesas e os créditos que o João Pedro conseguiu obter, com imensa dificuldade, para resolver as necessidades daqueles dois dias, (quando deixou o Tito na aldeia, não levou consigo nenhum dinheiro), tomamos o caminho para Libreville, capital do Gabão. O de sempre: estradas empapadas, cheias de lama, muita dificuldade em transitar.
Após um grande esforço, mas maravilhados com a cerrada floresta, ainda quase virgem, considerada uma das mais belas do mundo, cuja obscuridade era quase total ,o que nos obrigou a rolar de luzes acesas, chegámos a uma pequena aldeia chamada N’Dingui. Fomos falar com o Chefe, que, como é tradição, nos deve conceder autorização para aí pernoitar. Todavia, o Chefe não podia fazer-nos companhia pois tinham lugar nessa noite os ritos de passagem da infância para a idade adulta, e era realizada a circuncisão. Estes ritos de iniciação, decorrem longe dos olhares e ouvidos profanos.
Pedimos para tomar um banho. Levaram-nos até ao rio. Um rio de cor barrenta das chuvas. Pareceu-nos que se tomássemos banho naquela água, ficaríamos ainda mais sujos do que estávamos! Mas lá nos refrescámos como pudemos. Depois fomos convidados para um passeio pela selva, para verificar se as armadilhas de caça tinham apanhado alguma coisa. Para surpresa nossas tinham apanhado três javalis! Então, deleitámo-nos a comer refogado de javali com mandioca cozida à volta duma fogueira.
A mulher do Chefe tinha-nos preparado um lugar para dormir no chão, mas equipado com um mosquiteiro.
No dia seguinte, continuámos a avançar em direcção à capital por terrenos intransitáveis. Junto à costa, encontrámos uma zona de centenas de metros com estátuas belíssimas. Explicaram-nos que isso decorria do facto de o Gabão ser um grande exportador de madeiras e que os naufrágios dos barcos que as transportam possibilitam que grandes quantidades de toros dêem à costa. O Governo e a Câmara de Libreville permitem que, colocados na vertical, sejam esculpidos pelos artistas locais, transformando aquela avenida frente ao mar, numa área muito agradável.
Comprámos então postais que, mais uma vez, enviámos aos nossos patrocinadores e amigos, transmitindo a ideia de que não esquecíamos aqueles que nos permitiram a realização deste sonho.
Ansiosos por chegar aos Camarões, porque aí tínhamos amigos portugueses à nossa espera: o Nóbrega e a Fadma, sua mulher, passamos por Mitzic, atravessámos a linha do equador, onde nos fotografámos e pela única estrada transitável dirigimo-nos até ao rio Ngoko que faz fronteira com os Camarões.
Estando a terminar a travessia deste país tivemos ainda a oportunidade de, em pensamento, homenagearmos, um famoso filósofo e intelectual, catedrático de teologia, médico e um dos maiores intérpretes de órgão das obras de Bach, que decidiu deixar um mundo que lhe prometia tudo e vir para a selva, até Lambaréné e aí erguer, à força de pulso e vontade, um hospital. Este “ doutor da selva” como era chamado apesar da sua humildade viu reconhecido internacionalmente o seu trabalho e assim Albert Schweitzer, foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz.
Gabão, nome atribuído pelos descobridores portugueses que em 1484, ali chegados, acharam que o profundo estuário do rio Komo era parecido com um capote alentejano com capuz.
Este país, o mais ocidentalizado dos países da África ocidental, embora muito dependente da riqueza do petróleo procura desenvolver outras alternativas como, por exemplo, a exploração da sua imensa floresta.
República dos Camarões
Capital: Yaoundé Moeda: Franco CFA Línguas Oficiais: Francês e Inglês
Quarta-feira, 24 de Setembro
Entrámos nos Camarões e após termos percorrido 40 a 50 quilómetros em boas estradas alcatroadas, encontrámos o Nóbrega e a Fadma que nos receberam de braços abertos!
O Nóbrega é um experiente motard pertencente, como nós, ao Moto Clube do Porto. Está a trabalhar e a viver nos Camarões como responsável pelas maiores moagens do país. Já realizou grandes viagens de mota; numa delas, a Marrocos, conheceu a sua mulher.
Soubemos que em Yaoundé, capital dos Camarões, havia um moto clube que nos esperava com uma festa. O Tito, demasiado cansado, foi dormir. O João Pedro acompanhou o Presidente do Fun Motoclube de Yaoundé e deu entrevistas contando episódios desta fantástica aventura que estavam a viver.
Ao longo dos seis dias que estivemos nos Camarões, a Fatma e o Nóbrega mostraram-nos as redondezas. Visitámos o famoso Monte Camarões, com 4.000 metros de altitude, vulcão adormecido perto de Douala, onde desagua o rio Sanagua.
Um dos membros do moto clube, que era deputado nacional, ofereceu-nos um jantar de honra em sua casa. Dirigíamo-nos a ele como Monsieur le Député. Foram apresentados pequenos filmes que mostravam a preparação dos alimentos, nomeadamente a preparação da jibóia: como tirar-lhe a pele, cozê-la, etc. Era o que ia ser servido: jibóia e larvas preparadas à “nossa” moda. Trocando olhares cúmplices, engolimos em seco e saboreamos as dificuldades deste momento em silenciosa agonia...
Mas, de facto, a jibóia foi um delicioso pitéu, que três vezes encheu os pratos. Deixa uma parecença com o coelho..., parecendo as pequenas vértebras como os ossitos do coelho. As larvas eram mais apetitosas do que as que tínhamos comido em Angola. Estávamos tão absorvidos que nem reparámos que só nós, os portugueses, é que estávamos a comer jibóia. Ainda pusemos a hipótese de nos estarem a pregar uma partida e de nos estarem a dar algo que não se comia... Mas não. Era uma questão de honrar os convidados: só se serviam depois de os convidados estarem satisfeitos e não quererem mais. Cumpriu-se a tradição local. E, conforme nos explicou a dona da casa, com a especial deferência de servir jibóia, a ilustres convidados estrangeiros.
Após o jantar, Monsieur le Député levou-nos a assistir a um espectáculo de música. A certo momento, somos obsequiados pelo chefe de orquestra com uma música dedicada aos visitantes que começava com o verso Les Portuguais.
Ficámos mais um dia em casa do Nóbrega. Com nova energia, partimos para a fronteira da Nigéria escoltados pelos nossos amigos do Moto clube de Yaoundé.
No passado, as tribos locais reuniam-se à volta de grandes Chefes (os fon). A caminho de Bamenda e a cerca de 20 km de Bafoussam, em Bandjoul no maciço de Adamaoua, fomos visitar, com os nossos amigos camaroneses, a mais importante e maior das 80 Chefaturas da etnia Bamileque. Uma Chefatura era uma espécie de castelo, residência de um grande Chefe, que dominava um território na qual se espalhavam diversas aldeias (as tandio). A magnificência, a riqueza e a rara beleza destes locais deixou-nos estupefactos. A cubata do Fon, construída no século XVIII com cerca de 20 metros de altura, exibia uma opulência e uma força incríveis. Todas as Chefaturas foram destruídas pelo colonizador europeu, arrasando igualmente a cultura e independência destas tribos.
Com os motards nossos amigos foi-nos possível conhecer alguns pontos de rara beleza, só acessíveis a quem conhece bem os cantos à casa. Foi o caso de umas quedas de água maravilhosas, que, certamente, nunca foram visitadas pelos turistas, até porque o turismo, não é nos Camarões uma actividade intensa... Os Camarões têm uma zona francófona, mais displicente e menos organizada, e uma zona anglófona, mais limpa e bem organizada, que é uma característica rara, nestes países.
Depois de Bamenda, vivemos momentos de grande aventura quando seguimos para a fronteira da Nigéria.
AS condições das estradas eram cada vez piores e era vulgar, nos 30 a 40 quilómetros até à Nigéria, encontrar camiões completamente atolados, enterrados na lama, provocando filas e filas de carros e camiões. Só com a ajuda das populações, era possível atravessar este mar de lama. Este pesadelo era contornado por vezes por caminhos alternativos, já que, naquilo que era considerado a estrada, era impossível transitar.
Num desses caminhos tivemos oportunidade de comer numa pequena aldeia, com meia dúzia de pessoas que viviam positivamente na Idade da Pedra. Ofereceram-nos uma sopa e ficámos um bocado a aquecer e a recuperar forças, junto ao fogo, onde se cozinhava em cima de grandes pedras.
Finalmente, após uma difícil progressão que nos é impossível descrever, onde encontrámos camiões soterrados até à caixa de carga outros com os seus velhos pneus furados, somos informados de que estamos numa zona de construção da Transafricana, que no futuro deverá permitir a ligação entre o Sul e o Norte de África.
Em toda a África fomos reparando que apesar da pobreza generalizada, ou por isso mesmo, tudo é aproveitável. Encontrámos um aparelho para mudança de pneus que, construído com os recursos escassos e materiais reaproveitados, combinavam um engenho e uma criatividade que só a necessidade (tão grande) permite construir.
Ao cair da noite decidimos ficar em Eyamojoek, a 20 ou 30 quilómetros da fronteira. Arranjaram-nos um pão, uma laranjada e sardinhas de conserva, único alimento à venda. Nem pensámos em preocupar-nos com as datas de validade…a fome era grande.
Depois veio a Polícia, apresentámo-nos, e tentámos tirar informações sobre a progressão até à Nigéria. Ficámos a saber que iria ser muito difícil lá chegar com as nossas motos, já que só com alguns veículos de tracção às quatro rodas era possível fazer alguns itinerários alternativos. Estando a prever-se chuva durante a noite, as condições ainda iriam piorar. Face a isto, fomos dormir numa pensão miserável, onde tomámos uma espécie de banho com um balde, em condições deploráveis. A meio da noite, caiu uma enorme tempestade com relâmpagos e chuva torrencial, que constantemente faziam a luz ir abaixo, pelo que tivemos que nos socorrer de uns candeeiros a petróleo.
De madrugada, quando nos preparávamos para arrancar, um habitante que tinha um 4x4 veio ter connosco e ofereceu-se para nos acompanhar mediante o pagamento de uma certa quantia. Aceitámos, e fomos constatando que, de facto, teria sido impossível passar por alguns locais sem a sua ajuda. Atravessámos grandes extensões de água e também quilómetros de lama, conforme a permeabilidade do terreno. A cerca de 5 quilómetros da fronteira, deixámos de ter dificuldades, mas o nosso amigo da 4x4 quis continuar a rolar na nossa companhia.
É de realçar que ao longo de todo este país vimos cartazes, não só no âmbito da prevenção, mas também de apoio ao combate à SIDA, numa tentativa de combate a esta doença, flagelo, que em permanente crescimento, está a aniquilar uma enorme percentagem, da população do continente africano.
-----Camarões, nome dado pelos portugueses em 1472, quando navegando nesta parte da costa de África tendo falta de água doce, procuravam uma entrada para se reabastecer; até que alguém, que caiu à água, constatou que ela era doce. Estava descoberta uma entrada. O rio Sanaga, pelo volume de água que desloca, torna doce a água do mar numa distância de mais de 5 quilómetros. Os navios entraram pelo rio e encontraram uma enorme abundância deste crustáceo e assim baptizaram o local com o seu nome.
Este país, onde se tocam as Africas central e ocidental, encruzilhada de povos, tem tudo, em termos de natureza, que existe, a norte do equador: savana, florestas quase impenetráveis, altiplanos e o Sahel.
República Federal da Nigéria
Capital: Abuja Moeda: Naira Língua Oficial: Inglês
Domingo, 28 de Setembro.
Após duas horas de trâmites aduaneiros, começámos o nosso percurso na Nigéria. Pretendíamos que fosse muito rápido porque os relatos que tínhamos falavam -nos dele em termos pouco simpáticos... Era o país em África que mais dinheiro extorquia, quer por parte da Polícia, quer dos Militares, e onde as condições de segurança eram mínimas.
Queríamos chegar rapidamente àquilo a que eles chamam “auto-estrada”, para tentar atravessar o mais rapidamente a Nigéria e chegar ao Benin. Os primeiros quilómetros foram sem sobressaltos. Embora as estradas não apresentassem grandes condições, eram muito melhores do que os últimos quilómetros nos Camarões, que estavam bem frescos na nossa memória.
Finalmente, um local de venda de frutas na berma da estrada foi o que a sorte nos fez encontrar, após dois dias a comer sardinhas de conserva. E aí, cada qual se deliciou a abrir o seu ananás, com um canivete suíço e a comê-lo com avidez. Tinham um sabor inesquecível, não sabemos se pela qualidade, se pela fome que trazíamos.
Chegámos pouco depois à auto-estrada da Nigéria que apresenta algumas características muito interessantes. Por exemplo, permite a circulação em ambas as vias, em ambos os sentidos. Depois, quando havia desastres, a forma de os sinalizar eram uns torrões de erva dispostos no espaço de 50 metros antes do local do acidente. Por outro lado, o triângulo de pré-sinalização, mesmo quando existia, não substituía os montes de terra e ervas tradicionais. Não é por acaso que este país tem uma das mais altas taxas de acidentes de viação do mundo.
Esta auto-estrada era interrompida por troços em péssimas condições, onde apareciam militares que pediam Money for cigarrettes. Resolvemos, então, comprar um volume de tabaco pensando que podíamos poupar algum dinheiro; ficámos estupefactos quando logo no primeiro posto, os militares que nos obrigaram a parar e a quem oferecemos um maço de cigarros, aceitaram sorridentes a oferta com uma mão e com a outra estendida tornaram a pedir Money for cigarrettes.
O desagradável nestas situações, não era sentir que estávamos a ser espoliados sem razão aparente... era sentir que os guardas apontavam as armas às nossas barrigas e, se lhes dizíamos, em inglês, para apontar a arma para o chão, sorriam e continuavam a apontar às nossas barrigas.
A facilidade com que se mata por estes sítios... Soubemos, por exemplo, que um grupo de militares tinha chacinado um padre para lhe roubar dinheiro. Quando uma nova patrulha nos mandava parar, sabíamos que íamos ter as armas apontadas. Ora, como podem imaginar, os nossos sentimentos não eram os melhores.
Também começámos a estranhar que, só próximo de localidades, houvesse troços de estrada em péssimas condições e vias alternativas criados pelos populares para possibilitar a passagem dos veículos. Exigiam dinheiro pela passagem, quase que o pagamento de uma portagem. Percebemos, então, que eram as próprias populações locais que destruíam a estrada e faziam as passagens alternativas para ganhar algum dinheiro. Mas, de facto, na via principal, alguns dos buracos eram muito fundos e não permitiam a passagem a nenhum tipo de veículo.
Apesar da Nigéria ser o quarto produtor mundial da OPEP, tivemos falta de gasolina! Em muitos postos por onde passávamos, tínhamos dificuldade em abastecer, com longas filas de carros e camiões. Soubemos depois que a Nigéria não tem refinarias capazes, vende o petróleo em bruto e depois importa o combustível. Quando há falta de divisas, este quarto produtor mundial de petróleo não tem gasolina para si próprio. Ela atinge um preço exorbitante, por isso a população vai roubá-la aos oleodutos, o que provoca por vezes acidentes graves. Por sermos estrangeiros, e ao verem as nossas motas, as pessoas que faziam fila nos postos, geralmente mandavam-nos avançar e o chefe do posto arranjava 20 ou 30 litros para podermos prosseguir o nosso caminho.
O João Pedro arranjou um meio para não pagarmos mais Money for cigarrettes. Numa pequena vila, ao atravessar um estreito carreiro alternativo à estrada destruída, foi abordado por um militar de boina preta que tinha perdido o autocarro semanal e precisava de boleia. Decidimos levar a carga do João Pedro na mota do Tito e ele dava boleia ao militar. Foi a grande solução! Quando nos aproximávamos de um posto de controlo ou da polícia, o sujeito dizia umas palavras e nunca mais foi preciso dar Money for cigarretes. O militar disse-nos que era da secreta...
Tentámos ficar a dormir num hotel, em Enugu, que o militar nos indicou. Quando solicitámos um quarto para os dois, disseram-nos que era proibido, que não podiam dormir dois homens no mesmo quarto. Era contra os princípios muçulmanos. Perante tal situação, e porque pagar um quarto para cada um já era muito dinheiro, fomos procurar outro hotel, onde acabámos por pernoitar.
Na manhã seguinte seguimos viagem e à medida que nos aproximávamos da fronteira com o Benin, a nossa situação ia-se tornando dramática por falta de combustível. Tivemos que reduzir a nossa velocidade drasticamente pois não conseguíamos encontrar bombas de gasolina para reabastecer. Encontrámos um polícia que nos mandou parar. O Tito disse-lhe adeus e seguiu viagem muito lentamente e o João Pedro parou.
Mais tarde, quando voltaram a encontrar-se já na fronteira o João Pedro, disse ao Tito:
- “É pá, tiveste uma sorte, o tipo queria dar-te um tiro! Fez-te sinal para parar e tu disseste-lhe adeus! Eu lá estive a explicar que estavas à rasca, sem gasolina, cansado, que com certeza não percebeste que ele queria que parasses. Estava furioso”.
-----Nigéria, o gigante de África, o país mais populoso deste continente, está profundamente dividido, com um Norte muçulmano e um Sul animista e cristão, sendo palco de frequentes motins, que causam sempre centenas de vítimas.
Este país, onde no tempo da colonização foi aplicada a fórmula de deixar os poderes tradicionais governarem, viu endurecer a luta pelo poder, devido à sua riqueza em petróleo, generalizando-se a corrupção e desvalorizando-se o enorme potencial da sua agricultura. Homenageámos o escritor da etnia ogoni Ken Saro Wiwa, que por ter tido a coragem de denunciar o saque a que está sujeita a economia nacional pelos militares, foi liminarmente executado.
República do Benin
Capital: Porto-Novo
Moeda: Franco CFA Língua Oficial: Francês
Terça-feira, 30 de Setembro.
Na entrada da fronteira do Benin, cambiámos algum dinheiro. As notas eram tantas que tivemos que forrar os nossos fatos por dentro para as guardar! Quando tratávamos dos documentos, um jornalista da Nigéria e outro do Benin dirigiram-se ao João Pedro, que aproveitou para dar umas entrevistas, contando o propósito da nossa viagem.
As pessoas à volta das motas eram às dezenas, a quererem tocar nas malas, nos pneus, no volante...
O Benin situa-se no antigo reino de Daomé e conforme descrito por historiadores e exploradores, era um reino imenso, poderoso e rico. Quando viajávamos a caminho da capital deste reino, passamos por Ganvié, conhecida como Veneza africana, a maior cidade lacustre de África, construída com cubatas de bambu, no lago Nokoué. Conta a história que a tribo pacífica dos tofinu, na fuga ás tribos guerreiras do norte, chegou ás margens de um grande lago. A religião dos reinos de Daomé proibia os seus guerreiros de entrar na água. Assim os tofinu mesmo não sabendo o que os esperava, preferiram avançar para o interior do lago. A perseguição tinha acabado e tinha começado a história do povo que aprendeu a viver sobre as águas.
Percorremos cerca de 15 km e chegámos a Cotonou, cidade cujo porto, pela sua importância a coloca como o centro económico do país. Depois de termos jantado num maquis (restaurante) e comido algumas iguarias locais tal como agutis (roedores de coqueiros) e gari (mandioca raspada), fomos passear um pouco antes de nos deitarmos.
No dia seguinte dirigimo-nos para Abomey, capital do antigo reino de Daomé, e pelo caminho constatámos a diferença quanto à natureza que nos ia rodeando: deixamos de ter as florestas luxuriantes para passar a ter mais savana
Fomos visitar o palácio real não nos sendo, infelizmente, permitido tirar fotografias. Contaram-nos que as mulheres de então para ascenderem à categoria de guerreiras, tinham que cortar os seios e que regressar das batalhas com duas cabeças do inimigo, pois a não a ser assim, seguramente que uma das cabeças seria a delas...
Avaliem a ferocidade destas guerreiras quando atacavam...
Num dado momento, estávamos parados para o João Pedro dar uma cigarrada, preocupados outra vez com a escassez de combustível, e ele perguntou ao Tito se não tinha reparado nos camiões da Mota & Cª ao que ele respondeu, não. No entanto, alguns quilómetros à frente, encontrámos um estaleiro da empresa.
Evidentemente que nos dirigimos para lá. Fomos recebidos em grande festa pelos nossos conterrâneos, que nos deram aquele abraço! Ficaram estupefactos com estes aventureiros do Porto que estavam a atravessar toda a África. Resolveu-se logo o problema da gasolina e de um parafuso moído, que logo foi arranjado. Era uma oficina bem apetrechada, onde se reparava todo o tipo de maquinaria. Tomámos um café bem tirado e passámos uns momentos agradáveis com estes portugueses. E pronto, saltámos para cima das motas atestadas com gasolina, com cafés saborosos no estômago, partimos para Parakou, onde dormimos. No dia seguinte seguimos estrada a caminho da cordilheira de Atakora, para atravessar o rio Pendjari, já na fronteira.
-----Benin, antiga costa dos escravos, é ponto de encontro de culturas e civilizações. Aqui os portugueses, quando regressavam à sua terra, deixavam as especiarias e uma enorme quantidade de nomes.
Este país, pioneiro do multipartidarismo em África, onde pela primeira vez um dirigente africano em regime de partido único entregou pacificamente o poder, o general Keruku.
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